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Cícero Dias e a arte moderna
César
Leal
1.
Entre
os pintores brasileiros contemporâneos creio que nenhum apresente uma
trajetória artística tão surpreendente quanto Cícero Dias, falecido em
Paris, na última terça-feira. Nascido no Engenho Jundiá, de seu avô, o barão
de Contendas, em 5 de março de 1907, nele contemplou pela primeira vez o sol
e a vegetação tropical que tanta influência iriam exercer sobre a sua
pintura. O sol do Nordeste iria oferecer-lhe uma luminosidade como não se
encontra em nenhuma outra região do planeta, nem mesmo nas praias de Argel,
onde Mersault, personagem de O Estrangeiro, de Camus, ao ser julgado
confessa no tribunal haver assassinado um árabe por causa do sol: “Disse
rapidamente ao juiz, misturando um pouco as palavras e consciente do meu
ridículo, que o matara por causa do sol”.
A luz, nos trabalhos
de Cícero Dias confirma o princípio hegeliano observado nas grandes criações
de Picasso, de Chagall, de Klee, nas discussões intelectuais de Kandinsky,
Franz Marc e Apollinaire. Para um grande pintor, o que é a luz? Um elemento
quase imaterial. Por sua quase imaterialidade, sua leveza, Hegel a definiu
como a primeira idealidade, a primeira identidade da natureza. Tal noção de
imaterialidade nada tem com o conceito de “desmaterialização” de que trata a
crítica de arte Lucy Lippard, dos Estados Unidos. A imaterialidade a que se
refere Hegel é um conceito filosoficamente concebido. E não teria ele razão
quando chega a dizer que a luz é o elemento físico da pintura? Desde muito
cedo, Cícero Dias voltou-se para o conhecimento do grande mundo exterior,
social e objetivo. Assim, podemos dizer que os processos, métodos e técnicas
de construção artística chegaram a ele por internalização do universo
objetivo, cuja subjetivação irrompe, através de uma união entre o racional e
o sensível, quando aos 21 anos expõe seus primeiros trabalhos no sagüão da
Policlínica do Rio de Janeiro, em 1928. Sem comprometer-se com ideologias,
ele faz com as cores na pintura – como ensinam hoje Henry Meschonnic e J.F.Lyotard,
em relação à palavra na poesia – uma forma de ação.
A exposição de 1928
deu-lhe fama imediata. Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Graça Aranha e
tantos outros não sabiam explicar o fenômeno. Nem mesmo Ismael Nery.
Influências surrealistas não podiam ser apontadas, ainda que o manifesto de
Breton, de 1924, assinalasse que o surrealismo surgira com Dante. E em
Cícero Dias o novo aparecia como um acréscimo à natureza de formas e de
imagens inusitadas. Ou seja, ele criava objetos que a natureza esquecera de
criar. Os elogios a seus trabalhos vinham de toda parte. Ele aniquilou as
divergências entre os modernistas do Rio, de São Paulo e do Recife.
Conseguiu a unanimidade. Geraldo Ferraz, crítico de arte de O Estado de
São Paulo afirmou: “Ele é a estaca zero da pintura brasileira moderna”.
Na realidade, Cícero Dias não foi modernista, na acepção do termo
usado pelos paulistas de 22. Sua pintura sempre foi moderna: o
modernismo de Gilberto Freyre que era o mesmo de Joyce e Yeats, como
tão bem foi vista por Geraldo Ferraz. O tempo avança e com ele Cícero Dias.
Em 1932 é convidado por Gilberto Freyre para ilustrar o livro que iria
torná-lo famoso: Casa Grande & Senzala.
Em 1937, participa de
exposição internacional, em Bâle (Suíça) e, no mesmo ano no Salão de Maio de
São Paulo, logo seguindo para a França, onde se encontravam alguns amigos:
Paulo Prado, Di Cavalcanti e Noêmia Brandão. Nos anos seguintes, realiza
numerosas exposições em Paris. É comparado pela crítica aos maiores artistas
do século. André Salmon, em Aux Ecoutes, o associa ao nome de Rimbaud
e termina dizendo que “os surrealistas acharam com quem falar”.
Ao explodir a Segunda
Grande Guerra, foi preso pelos alemães e internado em Baden-Baden. Se os
nazistas conhecessem suas relações de amizade com Picasso e grupos de
intelectuais da Resistência, tais como o poeta Paul Eluard e Max Jacob,
talvez ele não teria chegado aos 96 anos, aos quais chegou sempre
trabalhando, à semelhança do Faust em sua atividade incessante. Naquela
época, o governo brasileiro, em negociações com o governo alemão conseguiu
libertar Cícero Dias, que se fixou em Lisboa onde viveu um dos períodos mais
fecundos de sua arte. São dessa fase os belos quadros Distante,
pertencente hoje à coleção Claude Picasso, Retrato de Raymonde, Na
Praia, Cena Vegetal, e tantos outros que levaram Picasso e Paul
Eluard a pedir-lhe no final da guerra o seu retorno a Paris. Amigo do poeta
René Char, três de seus quadros foram batizados por esse poeta:
Afinidades de Sólidos, As Cidades Gêmeas e O Grande Dia. Sua
amizade com Paul Eluard resultou da admiração do poeta pela habilidade
técnica de Cícero Dias ao expressar a claridade do sol e do verde do
universo tropical. O quadro Palmeiras motivou a Eluard essa primeira
versão de seu poema Palmiers:
As árvores a copa
orvalhada de
sol.
Retas.
Dou a meu sol a seiva evaporada
O sou repousa sobre o
mármore
das folhas
como a água do mar no fundo
adormecido.
O céu é de um só bloco a terra
é vertical
a sombra das árvores conti-nuam as árvores.
Sempre se renovando,
Cícero Dias pinta quadros abstratos, torna-se precursor do Concretismo em
fins da década de 40, e não cessa de experimentar novas técnicas, como
convém a um artista que sempre esteve na vanguarda dos movimentos da
pintura.
O que vemos nos quadros de
Cícero Dias é a luz. A luz quase tão desmaterializada quanto as
imagens do sonho, onde nenhuma voz ou matéria efetivamente existem. Como na
física das quântica, algo semelhante ao neutrino, partícula quase imaterial
quanto o puro espírito, no sentido cósmico do termo. A luz – já afirmava
Hegel – por essa identidade Ideal, responde a um princípio: tem a
propriedade de fazer visível os objetos. Se Shakespeare tem razão, todos nós
somos feitos da substância de nossos próprios sonhos e nossa curta vida
está cercada pelo sono. Cícero Dias: o sonho de Jundiá, “plâncton do
tempo - crysallida”.
2. Conversando com Cícero
Dias
Quase todas as semanas
eu converso com Cícero Dias. Ele no seu apartamento: 123, Longchamps, Paris
XVIª, eu à rua das Pernambucanas, 194, Recife. De algum tempo para cá,
Cícero Dias tem me contado belas histórias de sua vida. Sobretudo da
infância, quadra da existência que mais impressiona o homem em sua breve
passagem pela Terra. Ontem, foi mais um dia de conversações com esse velho
amigo. Mas preferi que Cícero falasse todo tempo. Disse-me ele que ao deixar
o Recife, em janeiro, desembarcou em Lisboa e resolveu fazer uma parada para
descansar. Foram exaustivos os trabalhos no Projeto “Eu vi o Mundo”... “Na
realidade – afirma –, o corpo não cansa quando o espírito não tem fadigas”.
CD
Você diz que eu devia escrever minhas memórias, prossegue o pintor, mas um
livro de memórias pertence a um gênero especial, com leis especiais a serem
obedecidas com rigor. Ocorre que minha memória não obedece a gênero
especial, como ocorre nas autobiografias.
CL
Mas você possui uma vida muito rica, uma experiência vital rara. É daqueles
que surgiram na década de 20, a década mais agitada na vida intelectual do
Brasil.
CD
É verdade. Se eu fosse escrever minhas memórias começaria pela recordação de
fatos ocorridos durante minha carreira de artista, uma carreira feliz porque
nunca esperei tanto do que a vida tem me concedido.
CL
Então seria difícil você concordar com Montaigne, para quem todos os dias
são iguais. Quem viu um dia viu todos os dias, diz ele.
CD
Não penso como Montaigne. Quando ele diz “se haveis vivido um dias haveis
visto tudo, não há outro luz nem outra noite” está apenas a demonstrar ser
homem de seu tempo, encerrado em um castelo, escrevendo ensaios. Hoje a vida
é diferente. Não se deve separar o artista – poeta, pintor, compositor – do
gênero humano. Somos todos homens e cada homem deve viver o seu tempo. Ao
contrário de Montaigne, a vida a cada dia me oferece algo diferente. Os dias
para mim não são iguais. Os dias só podem ser os mesmos para quem não tem
uma atividade criadora. Montaigne tinha esse tipo de atividade. Mas o
conceito de dia para ele não é o mesmo que nós temos hoje.
CL
Então, para você, a vida deve ser encarada como uma verdadeira obra de arte?
CD
A vida não é uma obra de arte. Mas devemos agir de modo que ela pareça ser
assim. Como aproveito o que a vida me oferece, tenho boa memória. Devemos
dar atenção aos fatos da vida. É isso que faz boa a nossa memória. A minha é
excelente. Você também tem boa memória. Uma memória. Admirável. O segredo da
boa memória é gostar da vida.
CD
Com 93 anos, quando você se volta para o passado, o que de imediato lhe
chega à lembrança?
CD
Ó! Minha primeira recordação é dos divinos cajus de minha infância. Como
eram diferentes aqueles cajus: rubros, dourados, imensamente cheirosos,
tinham um colorido vibrante à luz do sol. Mas a saudade que sinto – saudade
maior – é de um doce de caju em caldas que comi certo dia no Engenho Jundiá.
Sempre gostei de doce de caju. Mas nenhum outro, até hoje, tinha a doçura, o
cheiro, o sabor daquele doce que me traz à memória tantas outras lembranças
vividas na minha infância nas três casas grandes de meus avós: Noruega,
Contendas, Jundiá. As três casas formavam um reino encantado, em que Jundiá
era a capital. A capital da minha infância. Lá recebi o sopro da vida. A
vida. Que vida? A vida que levei por esses Engenhos. Ela foi estimulante
para a minha obra. Obras minhas, criadas pelas minhas mãos e que as mostrei
pelo mundo afora.
CL
Quando você fala sobre tais coisas, o que lhe vem à mente? Agora, em relação
à pintura?
CD
É estranho. Lembro da frase de Diderot em Os salões: “Pintores,
protegei vossas obras contra a vulgaridade. Sede obscuros, difíceis”. É o
que vocês poetas fazem – os bons poetas – cultivar a “obscuridade” de
linguagem.
CL
Veja Cícero, como é a memória. Quando perguntei sobre sua relação com a
pintura você citou Diderot em uma de suas mais famosas passagens teóricas.
CD
César, vamos continuar esta conversa. Agora, Raymonde está dizendo que o
pernil de carneiro está na mesa. Vou comê-lo, com vinho, farofa e molhos
pernambucanos. Não falta o caju em calda. Mas sei que não terá o sabor
daquele que aos cinco anos comi em Jundiá…
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